Alice fechou-se numa garrafa e teve ódio do mundo. Um ódio impassível até dos momentos em que respirava felicidade. Porque até nos momentos mais felizes somos assaltados pela angústia ying de os sabermos breves.
Defendia-se de todas as paixões porque tinha medo que elas não durassem o tempo que os ponteiros do seu coração gostaria que durassem.
Alice observou no espelho as cicatrizes que a rachavam por dentro porque tudo lhe era interior. Raramente se exteriorizava porque nunca tivera o consentimento para fazê-lo, por isso ela mesma não se consentia. O seu interior tudo guardava e só se autorizava a partilhar o que fosse bom.
E sentiu-se chorar porque as cicatrizes eram em número inferior ao das feridas que sabia só poderem sarar por elas mesmas até que se tornassem, também elas, em cicatrizes. E até as lágrimas que chorava choviam dentro dela porque tudo lhe era interior e ela não se autorizava a exteriorizar. Era-lhe penoso admirar a sua beleza fúnebre, empalidecida num frasco de comprimidos lançado contra o espelho. Maldito espelho, jamais verás Alice mergulhar em ti outra vez!
E sentiu-se Anaïs porque chorava, não por estar acostumada à ausência daquela dor, mas por saber que a partir daquele momento choraria menos e tinha medo de sentir falta das lágrimas que haviam amanhecido chovendo dentro dela uma chuva miudinha que a inundava numa saudosa sede. Porque tudo lhe era interior. Uma alegre brevidade afagou-lhe o fino cabelo com a sua própria mão.
Alice percebeu nesse instante que faltava o yang dessa alegria na angústia. Que da mesma forma que nos momentos felizes era assaltada pelo angustiante pensamento de sabê-los breves, também os momentos de angústia, ela sabia, não durariam sempre. Numa alegria pateticamente flagrante revelou os dentes completos de uma boca tão inutilmente, irresponsavelmente, beijada. Porque tudo lhe era interior.
O espelho desenhava aquele estilhaçado sorriso e foi nessa altura que o seu coração voltou a face para o sol que nascia num berço de nuvens tímidas e, vivente, bateu mais uma vez:
__´` ´`
´ ` ´ `
´ `__Acorda Alice!__´ `
__´ uma voz lhe disse `___Acorda Alice!__
E Alice acordou.
Cláudia Borralho
22/08/2008
Num dia em que as gotas do piano deixaram de me fazer chorar, por isso lhe toquei.
"Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.”Anaïs Nin